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Visual Natural

Andanças e pensamentos

Por André Penna

Trips and reflections

By André Penna from Brazil


Uma Jornada vento abaixo

A Beautifull Dowinder

Do Ceará aos Lencois Maranhenses sobre uma prancha

From Ceará to the Lençois Maranheses over a surfboard




Imagine um rio a beira mar. Em sua margem, um vilarejo repleto de coqueiros, mangue, e alguma pipas colorindo o ceu. Mais atras, dunas e lagoas compondo um dos cenarios naturais mais puros que ja conheci. E pelo mar, vinha uma pessoa, deslizando em cima de uma prancha, puxada por uma pipa colorida. Do mar, ela fez uma suave curva para esquerda, e entrou pelo rio. Essa pessoa vinha feliz, muito feliz, cantarolando musiquinhas que brotavam em sua cabeca tamanho sua alegria.

Imagine a river by the sea. In its margin, a small village surrounded by coconuts, mangroves. Some colofull kites were coloring the sky. Just behind, some dunes and lagoons composing one of the most beautifull sceneries I have seen in my life. By the sea, there was this person coming over a surfboard, towed by a colorfull kite. He made a small curve and came by the river, very happy, singing small songs.

Essa pessoa era eu, apos percorrer 500 km de litoral, e viver muitas emocoes em 10 dias... Prazer, medo, alegria, ansiedade, extase... Era dia 31 de Julho de 2014, e eu chegava em Atins, nos Lençois Maranhenses. Torrado de sol, alguns quilos mais magro, em um estado de espírito ímpar, quase flutuando...

This person was me, after riding 500 km of coast in 7 days. I felt may emotions: pleasure, fear, happiness, anxiety, extasy.. It was 31 of July, 2014, and I arrived in Atins, Lençois Maranhenses. Black of sun, a few kilos less, and in very high spirits.

Viajar sobre uma prancha, utilizando energia eólica?

Travelling over a surfboard using the wind power?

Já havia feito no passado algumas jornadas em um caiaque oceânico, utilizando somente a força do meu corpo, dos remos, e fluindo pela natureza. Algumas voltas na Ilha Grande - RJ, volta na Ilhabela - SP, entre outras. Viagens de vários dias, acampando em lugares selvagens, aprendendo muito sobre os elementos. Mas viajar sobre uma prancha, sendo puxado por uma pipa, era bem surreal para mim até pouco tempo atrás. Seria um sonho?

I have done in the past some journeys in a sea kayak. Multi-days trips, camping in wilderness, learning a lot about the elements. But travelling over a surfboard was surreal to me until little while ago. Was that a dream?

Caiaque oceanico

O HISTORICO DO APRENDIZADO

THE LEARNING

Em 2009, aprendi a velejar de prancha a pipa (vulgo kitesurf, as pessoas adoram um nome em inglês!)

I learned to kitesurf in 2009

Em 2010, fui pela primeira vez ao Ceará. Em Jericoacoara, destino turístico clássico, percebi que esse pedaço de litoral seria perfeito para expedições utilizando a pipa. Pela Internet, li relatos de um tal Louis Tapper, da Nova Zelandia, que fez uma jornada de 2000 km pelo litoral do Brasil, utilizando a prancha e a pipa. O gringo foi de Salvador da Bahia até São Luiz do Maranhão, uma notável façanha, que durou exatos 33 dias.

In 2010 I went for the first time to north of Brazil, and realized that coast is perfect for big dowinders. Steady wind, small waves, warm water, lack of rocky cliffs... All that made it perfect for kitesurf backpacking. I read a report about this kiwi Louis Tapper, who made a 2000 km journey at this coast, from Salvador to São Luiz do Maranhão. The trip lasted 33 days, a big acomplishment.

Em 2011, resolvi voltar a Jericoacoara. Mas desta vez, não vi sentido em pegar um carro de fortaleza até meu destino, visto que o vento soprava forte na mesma direção. Porque não ir velejando? As pessoas criticavam minha ideia, porque iria sozinho. Mas se um gringo, que nem portugues falava, foi de Salvador até São Luiz... Fortaleza até Jeri seriam apenas 250 km, um passeio no parque.

In 2011 I decided to do a 250 km dowinder from Fortaleza to Jericoacoara. People questioned the decision to go solo. I thought that if a foreigner that did not even speak portuguese did 2000 km solo, for me, Brazilian, 250 km would not be so hard.

A equipe de 2011: Eu, Liv (GER), Cedric (SUI) e Louis (NZL)
The 2011 team: Me, Liv (GER), Cedric (SUI) and Louis (NZL)

E assim fiz, minha primeira jornada vento abaixo no nordeste brasileiro. Quando cheguei em Jericoacoara, quem encontro? O tal gringo, Louis Tapper, minha inspiração para minha pequena aventura. Ele estava no vilarejo dando palestras sobre a aventura do ano anterior, e recrutando um time para repetir o trecho que ele considerara o mais interessante dos 2000 km que percorreu. Me fez o convite de integrar a equipe, para seguir de barra grande (piauí) até atins, nos Lencois Maranhenses. Era uma equipe de 3 estrangeiros (Nova Zelandia, Suiça e Alemanha), para eles seria muito útil minha presença, pois eu era brasileiro e falava português fluente. Aceitei o convite, adiei minha passagem de volta, e partimos para aquela aventura. Seria um trecho de litoral bem mais selvagem do que o pedaço que havia passado antes. Foi uma bela aventura, sobre a qual não vou entrar em detalhes, não agora. Houveram alguns problemas, tivemos que dormir jogados na areia no delta do parnaíba, nas margens de um rio turbulento. E chegamos em Atins com uma baixa na equipe, a menina alemã se machucou e abandonou a jornada, já no Maranhão. A beleza dos lençõis maranhenses me marcou, eu senti que deveria voltar àquele paraíso.

That was my first big dowinder in northern Brazil. When I got to Jericoacoara, guess who I met? The kiwi Louis Tapper, the guy who inspired my little trip. He was in town giving lectures about his trip of the year before, and recruiting a team to repeat the most amazing part of the coast of the 2.000 km that he did. They were 3 foreigners: Louis from New Zealand, Cedric Schmidt from Switzerland and Liv from Germany. They invited me to join the team. I would be very usefull in the trip for the fact that I am brazilian and speak fluent portuguese. We would travel in remote areas. So I went on what was an amazing adventure, that I won't talk about it now. We went from Barra Grande (state of Piauí) to Atins (state of Maranhão). Atins is in the Lencois Maranhenses National Park, wich is a fantastic place. I felt that I must come back to this place.

Em 2012, volto a Jericoacoara devido ao convite de minha namorada. Novamente fui velejando desde fortaleza, sozinho. No dia em que cheguei em Jeri, sofro um acidente com a pipa, que por pouco não acaba de forma trágica. Aprendizado.

In 2012 I do the Fortaleza - Jericoacoara dowinder again. Arriving in Jeri I have a krazy accident with the kite. Learning.

Em 2013, decidi variar. Fui velejar de pipa nas perfeitas ondas do litoral norte peruano. Era uma experiência maravilhosa surfar aquelas ondas quilométricas, com a pipa me ajudando. Mas senti que aquilo não me deixava tão satisfeito e feliz quanto uma bela expedição, era algo mais superficial. Talvez porque as ondas não estivessem tão desafiadoras, apesar de perfeitas. Acabei pegando um onibus para os Andes, onde fiz uma bela travessia caminhando pelas altas montanhas peruanas.

In 2013 I went to Peru for a change, to kite in those amazing long waves in the north. It was very nice to surf those long waves with the kite, but I didn't feel so stoked with the experience. Maybe because the waves were not so big and challenging, it was a more superficial experience. I got a bus to the Andes and did a very nice trekking around the big mountains of the Cordillera Blanca.

O PLANO

THE PLAN

Em 2014, resolvi repetir de forma plena toda a costa que eu havia percorrido parcialmente em 2011. Agora, com mais experiência na bagagem, seria um belo desafio. Faria pela terceira vez o trecho fortaleza - Jericoacoara, e depois teria um pedaço de litoral novo para mim, entre o ceará e o piauí. E após isso, vem o Maranhão, onde eu teria a parte mais desafiadora, o Delta do Parnaíba, que eu havia passado em 2011, porém com uma equipe. Dessa vez, eu estava sozinho.

In 2014 I decided to repeat the trip I did in 2011, but this time alone. From Fortaleza to the Lençois Maranhenses national park. With more experience, that would be a nice challenge. I would cross the wild Delta do Parnaíba by myself.

Fortaleza aos Lençois Maranhenses
Fortaleza to Lençois Maranhenses

A LOGISTICA

THE LOGISTICS

Em uma expedição como essas, movida pelo vento, onde navegamos basicamente a favor do vento, temos um problema de logística: como voltar? Voltar contra o vento não é impossível, mas é quase! Demoraria 5 vezes mais tempo, e não haveria prazer algum, somente trabalho. Seria um zig-zag infinito pelo litoral.

In an expedition with the kitesurf, going dowind, we have a logistic problem: how to come back? Kitesurfing would be almost impossible, in a infinite zig-zag by the coast.

Dessa forma, comprei minha passagem de ida Rio - Fortaleza, e a passagem de volta São Luiz do Maranhão - Rio. De uma forma ou de outra eu deveria seguir até o Maranhão. Caso o velejo não desse certo, eu deveria seguir de ônibus ou carro até o destino. As chances do velejo dar errado não são poucas, muitas coisas poderiam dar errado. O equipamento poderia falhar. O vento também pode falhar, apesar que essa região é muito boa de vento. E ainda mais, o piloto poderia falhar. Por isso chamamos de aventura, é algo que não temos certeza do desfecho.

My solution was to fly Rio - Fortazela, and in the end fly back from São Luiz. Anyway, I should go all the way to the end. If I had problems with the navigation, I should travel by bus to the end. The chances of problems were not small, many things can go wrong in a trip with the kite. That's why we call it an adventure, it's something we are not sure about the end.

O EQUIPAMENTO

THE EQUIPMENT

No momento de decidir o que levar, tinha alguns problemas a resolver:

Deveria manter todos os meus pertences secos. Para isso, uso uma mochila estanque (a prova dágua), dentro da qual meus pertences vão dentro de um segundo saco estanque. Dessa forma tenho certeza que não entra uma gota dágua em minhas coisas.

First of all, I had to find a soltion to a big issue: how to keep my stuff dry?

For that, I use a dry bag. But one is not enough, so I use 2 dry bags, one inside the other. The outside dry bag was a backpack. It is very important that this backpack has a waist strap, otherwise it will jump and bang so much in your back.

O peso da mochila é uma questão muito séria. Excesso de peso poderia tirar todo o prazer da minha viagem, além de forçar meus joelhos e tornozelo (que são o ponto fraco nessa atividade).

Another very important issue is the weight of your backpack. Travel heavy would take away all the pleasure of my kiting, and sore my knees and anckles, wich are the weakness when you do a big dowinder.

Dentro de minha mochila havia:

Inside my backpack there was:

Sempre carregava ao menos 1 litro d'agua e alguma comida, para o caso de ter que caminhar distâncias, ou até pernoitar em lugares selvagens. Era uma possibilidade real.

There was always a possibility to have to walk in the wilderness. Up there is hot and dry like a desert. That's why I had to carry at least 1 liter of water, and some emergency food.

Utilizei sapatilha para proteger os pés. Dessa forma, eu poderia andar de forma grosseira em qualquer terreno, sem medo de ferir os pés. A última coisa que eu queria era machucar meus pés. Utilizei prancha de kite direcional (de ondas) com alças, para poder navegar mais rápido e com mais segurança.

I used some surfing booties to protect my feet, I didn't want to hurt them. That would be a big problem.

I used a directional kiteboard, made for surfing waves. I used straps on it, so that I can go faster and safer, falling less and not loosing the board.

Qual o tamanho da pipa a levar? O vento poderia variar muito de um local para o outro. No Ceará, eu sabia que enfrentaria ventos fortissimos ao me aproximar de Jericoacoara. Entretanto, no Delta do Parnaíba eu esperava ventos bem mais fracos. Não podia me dar ao luxo de levar 2 pipas, pois minha capacidade de carregar peso era muito limitada. Devia escolher um tamanho de pipa, e seguir com ele até o fim da jornada.

Another issue was what kite size to take? I could not take 2 kites, the extra kite would not fit in my backpack, and it's too heavy. In Ceara I knew I would be overpowered, but further up I would be underpowered, specially at the Delta do Parnaiba. I decided to take the 9 meters, I expected something around 40 knots in Jericoacoara. And 12 knots at the Delta at some moment. I customized my control bar so that I had a bigger trimming, wich means more depower.

Escolhi viajar com uma pipa de 9 metros quadrados. Meu maior medo era o excesso de vento na região de Jericoacoara. Portanto, customizei minha barra de forma que ela me desse a possibilidade de tirar mais pressão da pipa caso necessário. O fato de estar carregando uma mochila com um certo peso requer um pouco mais de pressão da vela.